domingo, 3 de novembro de 2024

 

Se Um Dia Te Trouxer o Silêncio

Se um dia o silêncio te trouxer de volta,
talvez venhas devagar, como quem não quer despertar
as pétalas da noite, os braços quietos do mar.

Não tenho palavras para te prender,
sou só o homem de mãos vazias,
sem promessas, sem gritos,
guardando o lume do que resta.

Deixei-te ir como se deixa um rio:
um pouco de mim nas margens,
um pouco de ti na corrente.
Não há pressa em quem ama;
há apenas o tempo lento do vento,
o tempo antigo das pedras.

E se um dia voltares, amor,
que seja como a luz vem ao outono,
calma e sem espinhos.
Que seja como uma manhã sem pressa,
uma esperança que nos envolve
sem saber se o dia será longo ou breve.

É no teu silêncio que espero,
no espaço entre as palavras e as sombras,
como quem planta em terra branda,
sem saber se há sementes ou frutos
mas sempre, sempre o desejo
de que voltes, de que fiques,
sem algemas, sem muros.

Porque o amor não é um grito,
nem promessa nem cais,
é um barco que solta âncora,
e navega sem voltar atrás.

E se um dia voltares, amor,
que sejas como o vento na pele,
o rumor antigo do mar.
Que saibas que aqui se guardou
um lugar para ti no silêncio,
onde as palavras já não são necessárias
para o que é eterno e breve.